Estes poemas tão belos, como aliás belos são todos os poemas dos verdadeiros poetas, apenas tentam exprimir o amor que o poeta tem à vida e a tudo o que a manifesta; seja o amor supremo - que é o amor pelo universo no seu infinito mistério - seja o amor singular - do tudo o que integra o todo. Escolher a imagem da mulher (a busca da complementaridade) como motivo do poema em nada altera o significado máximo da sua poesia (de Neruda)... Este poema é meu e teu, como teu e meu é o universo... o poeta somos tu e eu quando amamos vida, quando amamos o próximo que nos exprime... enfim, quando amamos Neruda na sua poesia. Recordo este poema do livro que sintetisa o que acabo de dizer:
O OLEIRO
Há em todo o teu corpo uma taça ou doçura a mim destinada.
Quando levanto a mão encontro em cada lugar uma pomba que andava à minha procura, como se te houvessem, meu amor, feito de argila para as minhas mãoes de oleiro.
Os teus joelhos, os teus seio, a tua cinturta, faltam em mim como no côncavo duma terra sedenta a que retiraram uma foram, e, juntos, estamos completos como um só rio, como um só areal.
=== Original Message === Para quem seriam poemas tão belos?
Cais, às vezes, afundas em teu fosso de silêncio, em teu abismo de orgulhosa cólera, e mal consegues voltar, trazendo restos do que achaste pelas profunduras da tua existência. Meu amor, o que encontras em teu poço fechado? Algas, pântanos, rochas? O que vês, de olhos cegos, rancorosa e ferida? Não acharás, amor, no poço em que cais o que na altura guardo para ti: um ramo de jasmins todo orvalhado, um beijo mais profundo que esse abismo. Não me temas, não caias de novo em teu rancor. Sacode a minha palavra que te veio ferir e deixa que ela voe pela janela aberta. Ela voltará a ferir-me sem que tu a dirijas, porque foi carregada com um instante duro e esse instante será desarmado em meu peito. Radiosa me sorri se minha boca fere. Não sou um pastor doce como em contos de fadas, mas um lenhador que comparte contigo terras, vento e espinhos das montanhas. Dá-me amor, me sorri e me ajuda a ser bom. Não te firas em mim, seria inútil, não me firas a mim porque te feres. Pablo Neruda